Missionários Combonianos em Moçambique

Luiz Fernando Lisboa: “Grito de socorro de Cabo Delgado, Moçambique!”

Segunda-feira, 4 de Maio de 2020

D. Luiz Fernando Lisboa, Bispo da Diocese de Pemba, acaba de escrever uma carta às autoridades moçambicanas, pedindo-lhes que escutem o grito de socorro dos milhares de moçambicanos, residentes na Província de Cabo Delgado. Na carta, que a seguir publicamos, o prelado descreve a história dramática em que vivem as populações do norte do País, desde o início do conflito em Outubro de 2017 até hoje.
No dia de Páscoa, 12 de Abril, o Papa Francisco, na bênção “Urbi et Orbi”, apelou para uma resolução rápida da crise humanitária que assola Cabo Delgado, a Província da República de Moçambique que confina a Norte com a Tanzânia.
Os acontecimentos estão a tornar-se cada vez mais dramáticos. Basta recordar o massacre de 52 jovens que negaram entrar nas fileiras dos insurgentes e que foram mortos a tiro na aldeia de Xitaxi, no passado dia 9 de Abril; o aumenta do número das pessoas que estão a fugir para a cidade capital provincial, Pemba, devido à crueldade dos ataques dos insurgentes; o surto de cólera que assola parte da Província; e, agora, o surgimento do Covid-19, com o registo do primeiro contagiado pelo vírus, no campo de pesquisa do gás da empresa Total.
Diante deste trágico cenário, há muito tempo que se levanta uma voz que pede socorro para Cabo Delgado. Trata-se do Bispo de Pemba, D. Luiz Fernando Lisboa, que, desde a primeira hora, não deixou de alertar as autoridades locais e nacionais, e a sociedade civil, para o drama que a população de Cabo Delgado está a viver desde 2017.
A seguir, publicamos o texto integral da carta de D. Luiz Lisboa.

 

Grito de socorro de Cabo Delgado, Moçambique!
D. Luiz Fernando Lisboa, Bispo de Pemba

Venho manifestar, por este meio, minha profunda indignação com aquilo que tem acontecido com a Província de Cabo Delgado desde o dia 4 de Outubro de 2017 até hoje, 24 de Abril de 2020:

  • Desde os primeiros ataques, os insurgentes deixaram claro que seu alvo era o Governo e as FDS, mas com o tempo, para mostrarem a sua força e chamarem a atenção da sociedade e do Governo, começaram a atacar as populações indefesas com requintes de crueldade (decepando cabeças);
  • durante o primeiro ano atacavam pessoas nas Aldeias distantes das Vilas-sedes; durante o segundo ano começaram a atacar auto-carros, chapas e impedir o acesso a muitos lugares dos Distritos afectados;
  • a partir dos últimos meses de 2019 começaram a atacar Aldeias grandes e próximas das Estradas principais, como é o caso de Mbau (Mocímboa), Miangalewa e Xitunda (Muedumbe), Litingina (Nangade), entre outras;
  • neste ano de 2020 ousaram mais e começaram a atacar as Vilas: no final de Janeiro atacaram Quissanga e queimaram a Escola Técnica de Bilibiza; no dia 23 de Março atacaram a Vila de Mocímboa da Praia, incendiando infraestruturas do Governo local, Bancos, Comércio, aeródromo (aeroporto) e até o Porto; no dia 25 de Março atacaram pela segunda vez Quissanga, cuja população já estava “abandonada” pelas estruturas e autoridades locais; durante a Semana Santa atacaram 7 Aldeias de Muidumbe, incluindo Muambula, onde se encontra a Missão de Nangololo, cuja igreja foi arrombada e seus bancos e imagens queimadas; o mais trágico aconteceu na Aldeia de Xitaxi, neste mesmo Distrito, onde mataram 52 pessoas, maioria jovens, por não aceitarem fazer parte de seu grupo; foi o maior massacre desde o início; a Igreja de Cabo Delgado já os está a tratar como “Mártires de Xitaxi”;
  • no início dos ataques, as Aldeias que eram atacadas ficavam vazias porque a população fugia para as Vilas; nos finais de 2019 e início de 2020 as populações de todos os Distritos do Norte de Cabo Delgado, muitos, preventivamente e outros, por causa dos ataques que se intensificaram, começaram a fugir para as Vilas do Norte, mas também para a cidade capital, Pemba, e para outros Distritos da Zona Centro e Sul da Província; assim sendo, todos os Distritos de Cabo Delgado já têm deslocados por causa dos ataques; com toda certeza os deslocados já ultrapassam 200 mil;
  • os “insurgentes” atacaram várias bases dos militares e da PRM, apoderando-se de comida, armas, roupas, carros, matando muitos membros das FDS e obrigando que muitos fugissem humilhados;
  • os últimos ataques dos “insurgentes” são feitos em grande estilo, ou seja, com muitos armamentos, com fardas das FDS, com bandeiras e, pasmem, por terra e por mar;
  • há muitas crianças separadas de seus pais; quando há ataques nem sempre a família consegue ficar junta, gerando um sofrimento ainda maior; em Pemba, em finais de Janeiro, uma senhora chegou com 12 crianças, sendo que somente duas eram suas e as outras encontrou no mato;
  • os prejuízos são incalculáveis, tanto dos bens públicos, mas principalmente da população, pois são milhares de casas queimadas e pertences em geral (roupas, comidas, móveis…);
  • é muito difícil de precisar o número de vidas humanas já perdidas; é possível que ultrapasse 500 pessoas, pois nunca são reportados os números de mortos das FDS, tampouco dos “insurgentes”; algumas fontes chegam a dizer que ultrapassa 1000 pessoas;
  • a fome é outra realidade gritante nestes mais de dois anos pois as famílias não fizeram machambas (plantações) e vivem de favores nas casas de conhecidos e familiares, causando ainda mais fome pois não há comida suficiente para todos;
  • algumas Organizações Não Governamentais – ONGs – foram imprescindíveis com os seus apoios às populações (comida, tendas, material escolar, medicamentos, assistência em vários níveis;
  • na Região Norte da Província “dormir no mato” tornou-se obrigação para aqueles que teimam em permanecer ou que não têm condições de sair; por medo, a população dorme no mato e durante o dia vem para a Aldeia “cuidar” de sua casa e buscar algum pertence;
  • milhares de crianças e jovens estão sem estudar há muito tempo; quando começaram os ataques, os professores que ensinavam nas Aldeias atacadas e em outras não atacadas começaram a ficar nas Vilas; o mesmo aconteceu com os trabalhadores da saúde; tudo isso sem contar a destruição (queima) de muitas Escolas;
  • as autoridades “fugiram” das Vilas; tanto daquelas atacadas ultimamente como daquelas que ainda não foram atacadas; a situação é de total insegurança e medo; também os membros das ONGs que até agora resistiam, foram evacuados por suas organizações;
  • ainda resistem bravamente os missionários e missionárias católicos que se negam a abandonar o povo; porém, começam a se questionar e a serem questionados por seus superiores/as de congregações religiosas e por mim próprio, como Bispo dessa Diocese, pois, sentimos sobre os nossos ombros o peso da grave responsabilidade que temos sobre as suas vidas;
  • a Pandemia do Coronavírus já chegou em nossa Província que, no momento, já possui metade dos infectados do país; não temos as condições mínimas para enfrentar este flagelo; esta situação de guerra só tende a aumentar os riscos a que está exposta toda a população da Província, tanto aqueles que estão aglomerados nas vilas, quanto aqueles que estão a se esconderem nas matas;
  • o Papa Francisco escancarou a nossa situação quando, na sua Bênção Urbi et Orbi, no dia da Páscoa, falou especificamente sobre a guerra e a situação de crise humanitária que se vive em Cabo Delgado; esperamos que, assim como ele, as pessoas influentes e as organizações internacionais façam a sua parte.

Diante do exposto, de forma muito resumida, quero lançar este grito, porque ainda acredito que alguma coisa pode ser feita para pôr termo a tamanho sofrimento deste humilde povo: por amor de Deus, façam alguma coisa por Cabo Delgado, pois esta sofrida Província é parte de Moçambique!

Não sou ingénuo e sei que o Executivo, através das Forças de Defesa e Segurança está a agir, mas a sua ação não tem sido suficientemente eficaz. Porquê não criar uma Comissão supra-partidária, com membros da Assembleia da República, do Judiciário, da sociedade civil, para auxiliar o Governo no enfrentamento desta odiosa guerra? Porquê as Nações Unidas, a União Africana e a União Europeia não oferecem ajuda concreta a Moçambique?

Tenho muita fé de que Deus não abandonou o Seu povo, mas Ele espera, de nossa parte, uma acção mais responsável e eficaz. Somos Seus instrumentos e devemos pedir sempre, como São Francisco: “Senhor, fazei de mim, de nós, instrumentos da Vossa Paz!”

Deus nos abençoe!

Pemba, 24 de Abril de 2020
Dom Luiz Fernando Lisboa, cp
Bispo de Pemba