Missionários Combonianos em Moçambique

VISITA DO PADRE JEREMIAS À CIRCUNSCRIÇÃO COMBONIANA DE MOÇAMBIQUE - ASSEMBLEIA PROVINCIAL

Quinta-feira, 1 de agosto de 2019

O P. Jeremias dos Santos Martins, na qualidade de Conselheiro e Vigário Geral, está a visitar de 2 de Julho a 8 de Agosto a circunscrição comboniana de Moçambique. Além de passar pelas comunidades e encontrar-se individualmente com os confrades, participou também na Assembleia Provincial, que decorreu de 22 a 28 de Julho, na comunidade da Carapira, diocese de Nacala. Estiveram presentes quatro noviços e 33 confrades, vindos das dioceses de Maputo, Beira, Tete, Nampula e Nacala, nas quais os Combonianos se encontram a trabalhar.
Nos finais do século XX, Moçambique ainda era considerado um dos países mais pobres do Mundo. Hoje, é considerado um país em crescimento económico, sobretudo devido à crescente exploração das suas riquezas naturais do solo, do mar, e dos abundantes recursos minerais do subsolo. Entre os principais recursos minerais estão as grandes reservas de gás e petróleo, o carvão, o ouro, e as pedras preciosas e semipreciosas. Além disso, o País conta com um clima favorável à agricultura, com grandes extensões de terreno arável, e oferece grandes potencialidades turísticas, algumas ainda pouco exploradas, como é o caso das praias maravilhosas e dos parques naturais.
Apesar de tão grandes recursos, as fracas políticas públicas do Governo e a proliferação da corrupção fazem com que a maioria da população continue a viver em situação de pobreza, com vias de comunicação precárias, e com um acesso limitado e desigual à Saúde e à Escola.
Um bom contributo para a formação e preparação de quadros nos diversos ramos das ciências têm dado as várias universidades e institutos superiores – públicos e privados, surgidos nos últimos 25 anos, a partir do fim da guerra civil –, como, por exemplo, a Universidade Católica de Moçambique (UCM), que se encontra implantada em quase todas as cidades do Centro e Norte de Moçambique.
Contudo, de Norte a Sul do país, nas cidades e nos meios rurais, ainda são bem visíveis as pobrezas e as desigualdades sociais. Sendo assim, Moçambique continua a ser campo de missão para os Missionários Combonianos, conforme o carisma do Fundador, São Daniel Comboni. E o acolhimento é favorável, no parecer do P. Jeremias Martins, em visita ao país: “Os moçambicanos, em geral, estão abertos ao anúncio do Evangelho e acolhem com alegria a Palavra de Deus e os missionários combonianos, nos vários lugares onde se encontram.”
A Província comboniana de Moçambique conta com 44 missionários – de entre os quais um bom grupo de jovens –, vindos de 14 países diferentes, que procuram servir o país e a Igreja, em três áreas prioritárias: a pastoral, com particular atenção à Justiça, Paz e Integridade da Criação (JPIC); a auto-sustentabilidade da Igreja local e da província; e a formação dos jovens candidatos à vida missionária comboniana.
A realidade do país, e da sociedade em geral, é cada vez mais exigente e requere missionários preparados nos campos pastorais específicos, como se pode ler nas Actas Capitulares de 2015.
“O ambiente que se respira na Província comboniana de Moçambique – diz o P. Jeremias – é de fraternidade, um forte sentido de pertença e um empenho missionário apaixonado, que se exprime na presença e solidariedade com o povo no meio do qual vivem. Os confrades vivem contentes com a missão que lhes está confiada e há uma inserção serena na Igreja local. Há um manifesto apreço do trabalho comboniano por parte dos bispos e sacerdotes diocesanos, assim como dos agentes pastorais e leigos com os quais trabalhamos.”
Os missionários ainda têm muito que fazer, continua o P. Jeremias, sobretudo no campo da JPIC, porque, muitas vezes, “a exploração dos recursos minerários, em vários pontos do país, não dá a devida atenção nem às populações presentes nessas áreas nem ao respeito pelo ambiente”.
Sobre as prioridades no campo da auto-sustentabilidade da Igreja local e da formação dos candidatos combonianos, o P. Jeremias comentou: “Julgo ambas as duas prioridades importantes. A primeira, porque as ajudas materiais externas têm diminuído significativamente e a colaboração económica local do povo de Deus é ainda muito limitada. Daqui a necessidade de encontrar caminhos para uma maior autonomia da Igreja e também da Província. A segunda, pelo facto de ter vindo a crescer o número de jovens que pedem para entrar no Instituto comboniano. Neste caso, temos a responsabilidade e o dever de lhes oferecer um sério acompanhamento vocacional.”
O P. António Manuel Bogaio Constantino, superior provincial de Moçambique, considerou a visita do P. Jeremias à Província “um momento de graça. Visitou todas as zonas da Província e encontrou-se com todos os confrades. Encorajou-nos a termos olhos penetrantes para saber ler os sinais do tempo desta sociedade moçambicana que está em mutação continua. A procurarmos novas metodologias para responder aos desafios pastorais da sociedade das áreas rurais e urbanas, onde nos encontramos, e a sermos boas testemunhas do Evangelho. E animou-nos para continuarmos a dar o nosso apoio aos afectados pelo ciclone Idai, principalmente nas zonas mais atingidas.”

Assembleia provincial, em Carapira (Nacala).
A Assembleia foi preparada através de um questionário enviado às comunidades. A síntese das respostas constituiu o guião de trabalho da mesma assembleia, que teve duas partes. Na primeira, fez-se uma reflexão sobre o tema “Missão em saída na Pastoral Urbana e Rural”, em vista de identificar as directrizes mais adequadas para a elaboração de uma Carta de referência para a nossa pastoral missionária, no contexto actual da Igreja moçambicana. A segunda parte foi dedicada à leitura dos relatórios dos diversos sectores e à avaliação das actividades realizadas de 2017 a 2019, no sentido de verificar o grau de cumprimento do Plano Sexenal e programar o que ainda se deve fazer ao longo dos próximos três anos.

Como facilitador, foi convidado o P. Rafael Sapato, vice-reitor da UCM, o qual ajudou os participantes a encontrar os melhores caminhos para a acção pastoral hodierna, na Igreja moçambicana. Partindo da constatação de que “estamos numa mudança de época mais do que numa época de mudanças”, alertou os missionários para a necessidade – individual e institucional – de se fazerem mudanças radicais, e não só estruturais, no modo de se fazer e de ser missionário hoje.
O P. Rafael recordou que Jesus e o seu Coração estão no centro do serviço missionário dos Combonianos, pelo que devem permanecer fiéis à sua história, embora sem perder a criatividade, para servir a Igreja com paixão, com espírito de profecia e de comunhão tanto com a Igreja local como com os outros Institutos.
Por sua vez, o P. Jeremias, na sua intervenção na Assembleia, apresentou a missão comboniana como uma peregrinação, uma caminhada, não em torno de ideias, mas com horizontes mais amplas. E deu alguns exemplos do que se pode entende por “missão em saída”. Sair em missão é ir ao encontro dos outros e acolher uma realidade que está fora de nós, que nos pode enriquecer e, por sua vez, com a nossa acção também pode ser enriquecida. A ícone bíblica da missão em saída pode ser a parábola da ovelha perdida (Lc. 15, 3-7)). Jesus não teve medo de deixar as 99 ovelhas, que já estavam na segurança do redil, para ir à procura daquela que estava fora de casa. Missão em saída é ter a coragem de deixar de ficar “a pentear” – como diz Papa Francisco – as ovelhas que estão em volta de nós e que já nos obedecem, para ir à procura daquela que, talvez, não vai oferecer-nos nada, mas que está à espera de alguém que lhe anuncie a Boa Nova.
As conclusões da Assembleia, dos trabalhos de grupos e dos plenários foram entregues ao Secretariado provincial da Missão, a partir das quais deve agora elaborar uma Carta de referência que ajude a Província a viver o serviço missionário, com coragem e ousadia, à luz do carisma de Comboni.

A comunidade do Lumbo.
Os missionários visitaram as comunidades do Lumbo e da Ilha de Moçambique – um regresso ao ponto de partida, pois foi aonde aproaram os primeiros combonianos que chegaram a Moçambique –, para poderem re-partir com espírito renovado. Visitaram ainda o cemitério de Carapira, para pedir aos missionários e missionárias aí sepultados que continuem a interceder pelos combonianos da Província e pelo povo moçambicano que tanto amaram e serviram.

“Agradecemos a Deus por esta Assembleia – concluiu o P. Antonio Bonato –, pelos momentos de grande alegria que vivemos e por termos podido experimentar aquela fraternidade que nos faz viver com entusiasmo o carisma de Comboni e da Família comboniana.”